“Quem usa colher está aceitando a sopa fria do fracasso estatal.” — campanha publicitária, 2114
Como um apelido de jornal virou um tabu social, e por que a elite dos ESTEMPs toma sopa de canudinho.
Como nasceu o apelido
FicçãoA mídia zombou, a resistência adotou, a sociedade transformou em tabu.
A resistência se chama AntiFaCa, sigla de Anti-Fasci-Capitalistas. A mídia das corporações viu ali uma piada pronta: se eles são contra a faca, são colheres. Inofensivos, infantis, inúteis perto das facas afiadas das corporações.
1. A chacota. Charges, comerciais e programas de humor passaram a chamar os rebeldes de "colheres". 2. A adoção. A resistência abraçou o termo. Uma colher é fácil de ter, fácil de mostrar e fácil de reconhecer em qualquer cozinha do mundo. Surgiram os códigos: "pedir uma sopa" é perguntar se alguém é da resistência. 3. A campanha. As assessorias de imprensa dobraram a aposta. Em comerciais, holovídeos de rua e redes internas, a colher passou a significar fraqueza, estagnação mental e subversão. 4. O tabu. A população que não está na guerra começou a evitar colheres para não parecer simpática à resistência. Ninguém proibiu por lei; as pessoas abandonaram a colher por vontade própria.
"Comedor de sopa" virou xingamento entre executivos e na classe média corporativa, usado contra qualquer funcionário com baixo rendimento ou ideias reformistas.
A Revolução dos Utensílios
FicçãoSopa em barra, creme em sachê e talheres com logomarca gravada a laser.
Para provar lealdade aos Capi-Fascistas e não ser investigada por simpatia à resistência, a classe média-alta criou uma etiqueta nova, sem nenhum utensílio que lembre uma colher.
A indústria alimentícia reformulou tudo o que pedia colher. Sopas e caldos viraram barras sólidas; sobremesas cremosas viraram sachês de sucção rápida ou cápsulas mastigáveis. Na alta cúpula, sopa se toma de canudinho.
Facas e garfos de corte preciso, modulares, com a logomarca da empresa gravada a laser, viraram acessório de moda obrigatório. Os "talheres multifuncionais patenteados" de cada ESTEMP evitam qualquer superfície côncava.
Jantares de negócios viraram rituais de lealdade. Os convidados competem para ver quem usa os talheres mais caros, mais afiados e mais tecnológicos, exibindo o seu "amor ao corte corporativo". A aventura tem um jantar assim: Jantar de Faca.
O pânico moral
FicçãoNinguém foi proibido. Todos foram convencidos.
O mais assustador da cultura sem colher não é uma proibição, porque não há proibição. É que as pessoas foram convencidas a largar a colher, e têm orgulho disso.
As pessoas olham com medo e nojo para qualquer objeto côncavo. Se alguém encontra uma colher antiga esquecida no fundo de uma gaveta numa zona residencial corporativa, o reflexo não é guardá-la, e sim denunciá-la à segurança patrimonial por "apologia ao terrorismo subversivo".
A lei não fala de colheres. Mas a segurança patrimonial de cada empresa pode enquadrar o portador em "conduta incompatível com a cultura corporativa", e isso basta para uma investigação, uma realocação ou uma demissão. É uma zona cinzenta, e a zona cinzenta é a ferramenta.
Cidadãos muito escolarizados para produzir lucro e completamente infantilizados, incapazes de perceber que mudaram os hábitos alimentares e a própria dignidade por causa de um meme inventado por uma assessoria de imprensa. Transformaram um utensílio de cozinha num campo de batalha ideológico e sentem orgulho da própria submissão.
Os Capi-Fascistas
FicçãoA classe média-alta que trocou o nacionalismo pelo amor à marca.
Os Capi-Fascistas são a classe média-alta corporativa que desenvolveu um amor cego e fervoroso pela empresa que lhes paga. Trocaram o fascismo nacionalista pelo corporativismo de marca: no lugar da bandeira, a logomarca; no lugar do hino, o jingle.
São eles que denunciam colheres, que choram nas convenções anuais e que tatuam o número de matrícula. Não são vilões de quadrinho: são vizinhos, chefes e parentes. Muitos personagens jogadores vão ter um Capi-Fascista na família.