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Capítulo VI

A Cultura Sem Colher

“Quem usa colher está aceitando a sopa fria do fracasso estatal.” — campanha publicitária, 2114

Como um apelido de jornal virou um tabu social, e por que a elite dos ESTEMPs toma sopa de canudinho.

Como nasceu o apelido

Ficção A mídia zombou, a resistência adotou, a sociedade transformou em tabu.

A resistência se chama AntiFaCa, sigla de Anti-Fasci-Capitalistas. A mídia das corporações viu ali uma piada pronta: se eles são contra a faca, são colheres. Inofensivos, infantis, inúteis perto das facas afiadas das corporações.

O ciclo + contribuir

1. A chacota. Charges, comerciais e programas de humor passaram a chamar os rebeldes de "colheres". 2. A adoção. A resistência abraçou o termo. Uma colher é fácil de ter, fácil de mostrar e fácil de reconhecer em qualquer cozinha do mundo. Surgiram os códigos: "pedir uma sopa" é perguntar se alguém é da resistência. 3. A campanha. As assessorias de imprensa dobraram a aposta. Em comerciais, holovídeos de rua e redes internas, a colher passou a significar fraqueza, estagnação mental e subversão. 4. O tabu. A população que não está na guerra começou a evitar colheres para não parecer simpática à resistência. Ninguém proibiu por lei; as pessoas abandonaram a colher por vontade própria.

"Comedor de sopa" virou xingamento entre executivos e na classe média corporativa, usado contra qualquer funcionário com baixo rendimento ou ideias reformistas.

A Revolução dos Utensílios

Ficção Sopa em barra, creme em sachê e talheres com logomarca gravada a laser.

Para provar lealdade aos Capi-Fascistas e não ser investigada por simpatia à resistência, a classe média-alta criou uma etiqueta nova, sem nenhum utensílio que lembre uma colher.

A comida + contribuir

A indústria alimentícia reformulou tudo o que pedia colher. Sopas e caldos viraram barras sólidas; sobremesas cremosas viraram sachês de sucção rápida ou cápsulas mastigáveis. Na alta cúpula, sopa se toma de canudinho.

Os talheres + contribuir

Facas e garfos de corte preciso, modulares, com a logomarca da empresa gravada a laser, viraram acessório de moda obrigatório. Os "talheres multifuncionais patenteados" de cada ESTEMP evitam qualquer superfície côncava.

O jantar de negócios + contribuir

Jantares de negócios viraram rituais de lealdade. Os convidados competem para ver quem usa os talheres mais caros, mais afiados e mais tecnológicos, exibindo o seu "amor ao corte corporativo". A aventura tem um jantar assim: Jantar de Faca.

O pânico moral

Ficção Ninguém foi proibido. Todos foram convencidos.

O mais assustador da cultura sem colher não é uma proibição, porque não há proibição. É que as pessoas foram convencidas a largar a colher, e têm orgulho disso.

As pessoas olham com medo e nojo para qualquer objeto côncavo. Se alguém encontra uma colher antiga esquecida no fundo de uma gaveta numa zona residencial corporativa, o reflexo não é guardá-la, e sim denunciá-la à segurança patrimonial por "apologia ao terrorismo subversivo".

Crime ou não? + contribuir

A lei não fala de colheres. Mas a segurança patrimonial de cada empresa pode enquadrar o portador em "conduta incompatível com a cultura corporativa", e isso basta para uma investigação, uma realocação ou uma demissão. É uma zona cinzenta, e a zona cinzenta é a ferramenta.

O retrato + contribuir

Cidadãos muito escolarizados para produzir lucro e completamente infantilizados, incapazes de perceber que mudaram os hábitos alimentares e a própria dignidade por causa de um meme inventado por uma assessoria de imprensa. Transformaram um utensílio de cozinha num campo de batalha ideológico e sentem orgulho da própria submissão.

Os Capi-Fascistas

Ficção A classe média-alta que trocou o nacionalismo pelo amor à marca.

Os Capi-Fascistas são a classe média-alta corporativa que desenvolveu um amor cego e fervoroso pela empresa que lhes paga. Trocaram o fascismo nacionalista pelo corporativismo de marca: no lugar da bandeira, a logomarca; no lugar do hino, o jingle.

São eles que denunciam colheres, que choram nas convenções anuais e que tatuam o número de matrícula. Não são vilões de quadrinho: são vizinhos, chefes e parentes. Muitos personagens jogadores vão ter um Capi-Fascista na família.