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Capítulo V

A Vida do Colaborador

Adeus, patriotas. Olá, colaboradores.

Como se vive dentro de um ESTEMP: por metas, sob propaganda, sujeito à realocação, com medo da demissão e da quarentena que vem depois dela.

Adeus, patriotas

Ficção Dentro de um ESTEMP, ninguém luta por bandeira: luta por meta.

Dentro de um ESTEMP, os cidadãos não são cidadãos: são colaboradores. Não lutam por bandeiras, e sim por metas. Recebem 24 horas por dia propagandas que pedem engajamento total com a marca que paga o sustento deles.

Um dia comum + contribuir

  • Acordar no alojamento da empresa, com o painel de metas do dia já aceso na parede.
  • Café em sachê de sucção, porque colher não pega bem (veja A Revolução dos Utensílios).
  • Turno. Pausa obrigatória para o vídeo motivacional.
  • Turno.
  • À noite, o placar da equipe, as notificações de realocação e a campanha do Sonho das Colônias.

O chip + contribuir

Todo colaborador tem um Chip Biométrico Corporativo implantado na contratação. Ele abre portas, paga contas, registra horários e serve de passaporte. Quando a pessoa é demitida, o chip é bloqueado, e com ele a vida inteira (veja A Quarentena Corporativa e O catálogo pé no chão).

A Realocação Flexível

Ficção O neofeudalismo: você não tem carreira, você é um recurso alocável.

Não existe carreira fixa. Você é um recurso alocável. Se o setor de calçados estagnar, amanhã o publicitário pode estar limpando dutos de esgoto, em outra cidade, com outro alojamento.

Recusar a realocação significa demissão sumária.

Como funciona + contribuir

  • A notificação chega pelo chip, com prazo de 72 horas.
  • A família pode ou não ir junto, conforme o "pacote de mobilidade" do cargo.
  • O histórico profissional não conta. A realocação segue a necessidade da empresa naquele trimestre.

A Quarentena Corporativa

Ficção Demitido, você fica dez anos sem poder trabalhar para ninguém.

Oficialmente se chama Lei do Bloqueio de Capital Humano. Quando um colaborador é demitido, o registro biométrico e fiscal dele é bloqueado, e ele fica proibido de ser contratado por qualquer outra megacorporação por pelo menos dez anos. O objetivo declarado é impedir a espionagem industrial.

Lei de quem? + contribuir

Não existe um tratado assinado. A quarentena nasceu como uma cláusula de contrato da OmniTerra logo depois da Primeira Guerra Corporativa, quando contratar alguém do outro lado passou a significar importar um espião. As outras empresas copiaram. Hoje é uma prática de mercado: algumas empresas aplicam por mais tempo, outras por menos, mas todas aplicam, e quem não aplica fica malvisto.

Na prática + contribuir

O demitido vira um pária. Sem chip, não abre porta, não paga conta, não compra remédio. É empurrado para a miséria dos REGESTs ou para o nomadismo. As únicas saídas legais são a brecha da Monsoon e as minas da Severa.

A pirâmide

Ficção Ninguém escapa da realocação, a não ser quem é importante o bastante.

Em tese, as regras valem para todo mundo. Na prática, quanto mais alto o cargo, mais privilégios, e a sociedade empresarial é corrupta até o osso. Um diretor pode estar na lista de realocação e simplesmente não ir.

CamadaQuem éO que ganha
Acionistasas famílias que mandamsoberania
Executivos-astroos rostos da marcaimunidade de fato
Gerênciaquem aplica as regrasexceções às regras
Colaboradoresquase todo mundometas e alojamento
Terceirizadoscedidos pela Monsoon ou pela Kuro-Techum contrato por trimestre
Demitidosquem caiua [[quarantinequarentena]]

Os executivos-astro merecem nota: são executivos tratados como celebridades, com fãs, campanhas e escândalos. Sequestrar um deles é um dos ganchos clássicos da AntiFaCa.

O Sonho das Colônias

Ficção A propaganda-assinatura da OmniTerra: um paraíso no espaço que não existe.

O espaço, hoje, serve só para mineração. Ninguém mora lá, e as colônias não existem. Mesmo assim, desde 2120 a OmniTerra repete uma campanha:

A campanha funciona porque é coletiva e vaga. Ninguém ganha uma vaga individual, nunca há uma data, e qualquer queixa vira "você está atrasando a ida de todo mundo". Ela faz par com a campanha da colher: uma ridiculariza quem discorda, a outra promete o paraíso a quem obedece.

É mentira. Não existe projeto de colônia em andamento, nem orçamento para isso. A OmniTerra sabe; a maioria dos colaboradores desconfia; quase ninguém diz em voz alta.