Como se vive dentro de um ESTEMP: por metas, sob propaganda, sujeito à realocação, com medo da demissão e da quarentena que vem depois dela.
Adeus, patriotas
FicçãoDentro de um ESTEMP, ninguém luta por bandeira: luta por meta.
Dentro de um ESTEMP, os cidadãos não são cidadãos: são colaboradores. Não lutam por bandeiras, e sim por metas. Recebem 24 horas por dia propagandas que pedem engajamento total com a marca que paga o sustento deles.
Todo colaborador tem um Chip Biométrico Corporativo implantado na contratação. Ele abre portas, paga contas, registra horários e serve de passaporte. Quando a pessoa é demitida, o chip é bloqueado, e com ele a vida inteira (veja A Quarentena Corporativa e O catálogo pé no chão).
A Realocação Flexível
FicçãoO neofeudalismo: você não tem carreira, você é um recurso alocável.
Não existe carreira fixa. Você é um recurso alocável. Se o setor de calçados estagnar, amanhã o publicitário pode estar limpando dutos de esgoto, em outra cidade, com outro alojamento.
A notificação chega pelo chip, com prazo de 72 horas.
A família pode ou não ir junto, conforme o "pacote de mobilidade" do cargo.
O histórico profissional não conta. A realocação segue a necessidade da empresa naquele trimestre.
A Quarentena Corporativa
FicçãoDemitido, você fica dez anos sem poder trabalhar para ninguém.
Oficialmente se chama Lei do Bloqueio de Capital Humano. Quando um colaborador é demitido, o registro biométrico e fiscal dele é bloqueado, e ele fica proibido de ser contratado por qualquer outra megacorporação por pelo menos dez anos. O objetivo declarado é impedir a espionagem industrial.
Não existe um tratado assinado. A quarentena nasceu como uma cláusula de contrato da OmniTerra logo depois da Primeira Guerra Corporativa, quando contratar alguém do outro lado passou a significar importar um espião. As outras empresas copiaram. Hoje é uma prática de mercado: algumas empresas aplicam por mais tempo, outras por menos, mas todas aplicam, e quem não aplica fica malvisto.
O demitido vira um pária. Sem chip, não abre porta, não paga conta, não compra remédio. É empurrado para a miséria dos REGESTs ou para o nomadismo. As únicas saídas legais são a brecha da Monsoon e as minas da Severa.
A pirâmide
FicçãoNinguém escapa da realocação, a não ser quem é importante o bastante.
Em tese, as regras valem para todo mundo. Na prática, quanto mais alto o cargo, mais privilégios, e a sociedade empresarial é corrupta até o osso. Um diretor pode estar na lista de realocação e simplesmente não ir.
Camada
Quem é
O que ganha
Acionistas
as famílias que mandam
soberania
Executivos-astro
os rostos da marca
imunidade de fato
Gerência
quem aplica as regras
exceções às regras
Colaboradores
quase todo mundo
metas e alojamento
Terceirizados
cedidos pela Monsoon ou pela Kuro-Tech
um contrato por trimestre
Demitidos
quem caiu
a [[quarantine
quarentena]]
Os executivos-astro merecem nota: são executivos tratados como celebridades, com fãs, campanhas e escândalos. Sequestrar um deles é um dos ganchos clássicos da AntiFaCa.
O Sonho das Colônias
FicçãoA propaganda-assinatura da OmniTerra: um paraíso no espaço que não existe.
O espaço, hoje, serve só para mineração. Ninguém mora lá, e as colônias não existem. Mesmo assim, desde 2120 a OmniTerra repete uma campanha:
A campanha funciona porque é coletiva e vaga. Ninguém ganha uma vaga individual, nunca há uma data, e qualquer queixa vira "você está atrasando a ida de todo mundo". Ela faz par com a campanha da colher: uma ridiculariza quem discorda, a outra promete o paraíso a quem obedece.
É mentira. Não existe projeto de colônia em andamento, nem orçamento para isso. A OmniTerra sabe; a maioria dos colaboradores desconfia; quase ninguém diz em voz alta.