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Capítulo II

Cem Anos de Prestações

Ninguém declarou o fim das democracias. Elas foram ficando sem caixa.

De 2026 a 2126, em ordem: como as corporações passaram a ter mais dinheiro que os países, como uma briga por espionagem virou a primeira guerra entre empresas, e como um massacre ganhou o nome de demissão.

Linha do tempo

História + Ficção De um precedente do século XVII ao presente da campanha, em 2126.

Eventos documentados trazem uma citação. Eventos do cenário estão marcados como Ficção.

  1. 1600–1874História

    A Companhia das Índias Orientais mantém exércitos próprios e governa territórios. Uma empresa com tropa e fronteira não é invenção do futuro. [1]

  2. 2017–2018História

    O Distrito Federal vive cerca de um ano e meio de racionamento de água; o Descoberto chega ao menor nível da história. [6]

  3. 2022História

    Com Jacarta afundando, a Indonésia decide mudar a capital de lugar. [9]

  4. 2030–2045Ficção

    Era da Concessão. Estados endividados privatizam água, presídios, portos e defesa civil. As corporações ganham zonas econômicas especiais com regras próprias.

  5. 2046História + Ficção

    O Primeiro Asteroide. Robôs da OmniTerra lançados de Alcântara trazem um asteroide metálico para a órbita da Terra e começam a minerá-lo com lucro. [2]

  6. 2046–2065Ficção

    A Inversão. As empresas com operação espacial passam a ter mais caixa que os países que as hospedam, e começam a comprar a dívida deles.

  7. 2058História + Ficção

    O Brasil arrenda Alcântara por 99 anos em leilão, dividindo a base entre a OmniTerra e a Halcyon Orbital. [3]

  8. 2068Ficção

    A OmniTerra descobre que a Halcyon roubou o seu sistema de captura orbital e anuncia a sanção: quem trabalha com a Halcyon não trabalha com ela.

  9. 2068–2074Ficção

    A Primeira Guerra Corporativa, travada por seguranças privadas no Norte do Brasil. A Kuro-Tech vende armas para os dois lados.

  10. 2074Ficção

    A Halcyon quebra. A OmniTerra compra os destroços, Alcântara incluída, e com eles o Brasil inteiro, menos o Distrito Federal.

  11. 2079Ficção

    A OmniTerra declara soberania formal sobre as Américas: é o primeiro ESTEMP. As outras grandes seguem nas duas décadas seguintes.

  12. 2080–2100Ficção

    A Corrida do Ouro da Corrupção. O funcionalismo público vende o que resta dos Estados e ganha lugar dentro das empresas. Os REGESTs encolhem.

  13. ~2095Ficção

    Nasce a Quarentena Corporativa, como cláusula de contrato da OmniTerra. Em poucos anos vira prática de todo o mercado.

  14. 2097Ficção

    A Venda da Faixa. O REGEST de Brasília vende à OmniTerra a faixa da represa do Descoberto em troca do Contrato Humanitário de 2097.

  15. 2111História + Ficção

    A Grande Demissão do Triângulo de Jibuti. A Thalassa alaga a depressão de Afar; a Petro-Vanguard e a Great Rift envenenam o entorno. Milhões de mortos, todos demitidos segundos antes. [4]

  16. 2112–2115Ficção

    Nasce a AntiFaCa. A mídia apelida os rebeldes de colheres, a resistência adota o símbolo, e o tabu da colher se espalha pelos ESTEMPs.

  17. 2120Ficção

    A OmniTerra lança a campanha do Sonho das Colônias.

  18. 2123Ficção

    A Célula Concha completa a troca dos 41 funcionários da Estação Descoberto-7. A estação passa a mandar água extra para Brasília.

  19. 2126Ficção

    Presente da campanha. Uma auditora da OmniTerra chega ao Descoberto às 08h00 (a aventura).

O Primeiro Asteroide

História + Ficção 2046: a primeira riqueza que nenhum governo controlava.

Em 2046, robôs da OmniTerra lançados de Alcântara trouxeram para a órbita da Terra um asteroide metálico e começaram a minerá-lo com lucro. Ninguém morava no espaço, e ninguém mora até hoje; mas pela primeira vez uma empresa tinha uma fonte de riqueza fora do alcance de qualquer governo. A ideia era antiga [2]; o que mudou foi quem pagou por ela.

A Inversão + contribuir

Nos vinte anos seguintes, as empresas com operação espacial passaram a ter mais caixa do que os países que as hospedavam. Primeiro elas financiaram os governos, depois compraram a dívida deles, depois compraram os governos. Os historiadores corporativos chamam esse período de Inversão; os REGESTs chamam de Penhora.

Por que a Terra ainda importa + contribuir

O espaço tem metal, mas não tem gente. Viver lá em cima continua caro e difícil. As refinarias, as bases de lançamento, a água, a comida e, principalmente, a mão de obra continuam aqui embaixo. Por isso as corporações ainda brigam por território, e por isso o Sonho das Colônias é uma promessa tão útil.

A Primeira Guerra Corporativa

História + Ficção 2068–2074: uma briga por espionagem que terminou com o Brasil inteiro vendido.

A primeira guerra entre empresas não teve ideologia. Ela começou com um roubo e foi escalando, uma retaliação de cada vez.

Como começou + contribuir

1. A espionagem. A Halcyon Orbital, a segunda mineradora a chegar aos asteroides, chegou rápido demais. Em 2068 a OmniTerra descobriu que ela tinha roubado o sistema de captura orbital usado no Primeiro Asteroide. 2. A sanção. A OmniTerra anunciou: quem trabalha com a Halcyon não trabalha comigo. Fornecedores, bancos e clientes tiveram de escolher um lado, e o mercado se rachou em dois blocos. Esse racha é o esboço do mundo dividido em ESTEMPs. 3. As sabotagens. Cargas desviadas, sistemas derrubados, acidentes em obras. 4. O avanço. Para minerar o espaço é preciso lançar foguetes, e os melhores lugares ficam perto do Equador [3]. A Halcyon comprou terras em segredo em volta de Alcântara, no Maranhão, e sabotou lançamentos da OmniTerra. 5. A escalada. Quando isso foi descoberto, as seguranças privadas das duas se enfrentaram no Norte do Brasil. Cada resposta foi maior que a anterior.

Como terminou + contribuir

Em 2074 a Halcyon quebrou, e a OmniTerra comprou os destroços, Alcântara incluída. O Brasil, endividado e sem forças para negar, passou a ser território da OmniTerra. Só o Distrito Federal ficou de fora, porque não tinha nada que interessasse (veja O REGEST de Brasília).

A Kuro-Tech vendeu armas para os dois lados durante toda a guerra. Os "armamentos de pacificação" pelos quais ela é conhecida nasceram ali.

O que a guerra deixou + contribuir

  • A Quarentena Corporativa: depois da guerra, contratar alguém do outro lado passou a significar importar um espião.
  • A ideia de que uma empresa pode ter exército, fronteira e inimigo, como um país.

A Corrida do Ouro da Corrupção

Ficção 2080–2100: quando o funcionalismo público vendeu o que ainda restava.

Quando ficou claro que os Estados iam encolher, quem trabalhava neles fez as contas. Entre 2080 e 2100, ministros, juízes, fiscais e diretores de estatais usaram o caos para vender acordos, licenças, terras e dados às corporações, e em troca ganharam lugar dentro delas.

Muitos executivos de alto escalão de hoje descendem desses funcionários. É por isso que a burocracia dos ESTEMPs tem cara de repartição pública: ela foi montada por gente que vinha de uma.

O que isso deixou + contribuir

  • Os REGESTs ficaram com o pior. O que dava lucro foi vendido; o que ficou foi o que ninguém quis comprar (veja Os vinte REGESTs).
  • A corrupção virou cultura de empresa. Nos ESTEMPs, regras valem para todo mundo, menos para quem é importante o bastante (veja A pirâmide).
  • Arquivos esquecidos. Contratos dessa época, como o que dá a Brasília a sua água (veja O REGEST de Brasília), ainda estão em vigor porque ninguém se deu ao trabalho de cancelá-los.

A Grande Demissão do Triângulo de Jibuti

História + Ficção 2111: o maior trauma do século, com um nome de procedimento.

O Triângulo de Afar, na entrada do Mar Vermelho, é uma das regiões mais baixas do planeta: o Lago Assal fica 155 metros abaixo do nível do mar [4]. Ao lado dele passa o estreito de Bab-el-Mandeb, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo [5]. Em 2111, as duas coisas se encontraram.

O gatilho + contribuir

A região era território de colaboradores da Great Rift Holdings, com portos operados pela Thalassa Corp. Depois de um colapso estrutural nos portos, a Thalassa calculou que era mais barato afundar a região do que reconstruí-la. Ela abriu um canal e deixou o mar entrar na depressão. A conta tinha uma vantagem extra: terra alagada vira mar, e o mar é dela.

A cascata + contribuir

Para proteger os próprios mercados da crise, as duas vizinhas responderam. A Petro-Vanguard envenenou a costa do outro lado do estreito; a Great Rift terraplanou e envenenou o lado continental. Milhões de pessoas morreram, registradas como "dano colateral aceitável".

O nome + contribuir

Segundos antes da inundação, todos os moradores receberam uma notificação de desligamento. Tecnicamente, foram demitidos antes de morrer, e por isso nenhum ESTEMP responde por homicídio. A região alagada aparece nos mapas corporativos como Golfo da Demissão.