O Fugitivo
Ficção O homem que levou a criatura até a beira do mar em 1866, e por que ela nunca chegou.
Em 1866, enquanto a São Paulo Railway ainda abria caminho serra acima [2], um homem chegou do interior ao acampamento da obra no Alto da Serra. Estava faminto, descalço, e trazia nas costas um geodo do tamanho da cabeça de uma criança, enrolado em sacos molhados. Disse que se chamava Bento Arruda, garimpeiro da terra das ametistas no extremo sul [10], e que andava havia meses.
Disse que estava fugindo. Nunca disse de quê.
Bento não fugia com a pedra. A pedra é que fugia, e ele era as pernas dela. Ela havia enchido os pulmões dele de névoa numa caverna alagada no sul e o guiado para o leste, sempre para o leste, rumo ao mar de que tinha sido separada. O Alto da Serra era a última crista antes do litoral: Paranapiacaba, "o lugar de onde se vê o mar" [8]. Ela enfim podia ver o oceano.
Nunca chegou a ele.
Os engenheiros britânicos perceberam que o nevoeiro seguia Bento, que as turmas que trabalhavam perto dele nunca se cansavam e que acordavam com soluções para problemas de engenharia que não tinham conseguido resolver. Tomaram dele a pedra. Naquela noite, Bento tentou levá-la serra abaixo no escuro. Foi encontrado ao amanhecer, ao pé do primeiro plano inclinado, afogado em terra seca, com os pulmões cheios de água do mar.
Os engenheiros entenderam algo depressa: uma pedra que pode ser carregada sempre vai encontrar novas pernas. Então garantiram que ninguém jamais pudesse carregá-la de novo. Começaram a alimentá-la, com água do mar para mantê-la sonolenta e com ferro e pedra para fazê-la crescer, até que seu corpo encheu os túneis sob a Grota Funda e se fundiu à montanha. Veja O Coração de Ametista e O Vagão da Companhia.
Aqueles engenheiros se tornaram a primeira Companhia das Sombras.
O que os investigadores podem encontrar + contribuir
- No escritório do Castelinho: o caderno manchado de água de Bento. As anotações ficam mais curtas à medida que ele se aproxima do litoral. A última linha diz: "Daqui se vê o mar."
- No livro de registros do acampamento de 1866: um sepultamento com causa da morte dada como "afogamento", numa montanha 800 m acima do mar.
O Coração de Ametista
História + Ficção Uma semente de cristal trazida em 1866, alimentada por um século até seu corpo virar parte da montanha.
A criatura tem um coração e um corpo, e eles já não têm o mesmo tamanho.
O geodo original que Bento Arruda carregou serra acima em 1866: mais ou menos do tamanho da cabeça de uma criança, cristal violeta por dentro e, por fora, uma superfície de formas enroladas e cheias de barbatanas que nenhuma mão humana esculpiu. Este é o verdadeiro núcleo da criatura.
Por mais de um século, a Companhia alimentou a Semente, e ela cresceu. Hoje, uma catedral de cristal violeta enche a câmara sob a Grota Funda, com veios que correm fundo na rocha da Serra. Pesa centenas de toneladas e faz parte da montanha. Nunca poderá ser movida. Era essa a ideia desde o início. A Semente continua no centro, selada dentro do cristal.
Por que ametista, e o que ela come História → Ficção + contribuir
A ametista é quartzo, ou seja, sílica, colorida de violeta por impurezas de ferro ativadas por radiação [10]. Os geodos gigantes do Brasil se formam nas rochas vulcânicas do extremo sul, não no granito da Serra do Mar [11].
A ficção leva isso ao pé da letra. A Companhia alimenta a criatura exatamente com aquilo de que a ametista é feita:
- Sílica: brita de granito do leito da ferrovia.
- Ferro: limalha dos cabos de aço gastos, das sapatas de freio e dos aros das rodas do funicular, varrida em cada patamar.
- Água do mar: o meio em que os cristais crescem, e o sedativo que mantém a criatura sonolenta.
A radiação, a própria criatura fornece. A ferrovia literalmente construiu o corpo dela. Veja O Vagão da Companhia.
- Tocar o Corpo ou a Semente: SAN 1/1D6, +2 de Contato e uma visão do fundo do oceano.
- Soltar a Semente leva uma hora com ferramentas da ferrovia e um teste bem-sucedido de Ciência (Geologia) ou Consertos Mecânicos. O barulho atrai o culto.
- A Semente solta pesa uns 20 kg e pode ser carregada, mas quem a carrega ganha 1 de Contato a cada hora, que foi como Bento morreu.
- A dinamite industrial do almoxarifado da ferrovia pode estilhaçar a Semente: veja Final B — Estilhaçar a Pedra.
O Vagão da Companhia
Ficção O vagão-tanque fora da lista, com água do mar, ferro e pedra, que subiu em todo trem por um século.
Todo trem que subia de Santos ao planalto era obrigado a levar um vagão a mais: um vagão-tanque modificado, registrado nos livros como "lastro", ou nem registrado.
O tanque levava toneladas de água do mar e, nela, uma lama de granito britado e limalha de ferro: o pó da própria ferrovia, recolhido dos cabos gastos, das sapatas de freio e das rodas em cada patamar. No Quarto Patamar, o vagão despejava sua carga no subsolo, rumo à Grota Funda.
A água do mar mantinha a criatura sonolenta. O ferro e a pedra alimentavam o corpo de cristal que a mantém acorrentada à montanha. Veja O Coração de Ametista.
Na ficção, o peso morto deste vagão é o motivo escondido para a ferrovia precisar de máquinas fixas tão potentes, de cabos de aço e de As Locobreques. O motivo real eram a carga e uma subida de 796 m [5], o que torna a mentira fácil de acreditar.
- Manchas de ferrugem em forma de linhas de maré dentro de um vagão-tanque abandonado no pátio.
- Barris lacrados com a etiqueta "LIMALHA — 4º PATAMAR" empilhados atrás do galpão das máquinas.
- Contas mostrando custos de "água de lastro" que nenhum auditor jamais questionou (veja Eduardo "Dudu" Fonseca).
- A última carta de um operário desaparecido sobre "algo vivo no fundo do tanque" (veja Helena "Lenita" Castro).
A Névoa
Ficção A voz da criatura: respire-a e você entra em contato com a coisa sob a montanha.
A entidade tem duas metades. Seu corpo é uma massa de cristal violeta crescida dentro da rocha sob a Grota Funda (veja O Coração de Ametista). Sua voz é a névoa. Ela não pode se mover, então fala, e fala do único jeito que pode: pelo ar que as pessoas respiram.
O nevoeiro real de Paranapiacaba [5] lhe dá o disfarce perfeito.
Cada fôlego de névoa é um momento de contato com a criatura. Os moradores a respiram de leve há um século e não ouvem mais que um murmúrio, abafado pelo sal que jogam nos bueiros no Festival de Inverno. O culto a respira de propósito, e seus membros estão em contato profundo. Os investigadores ficam expostos desde a primeira noite na vila.
Este é o coração do horror do cenário: os jogadores estão sendo infectados o tempo todo. Quanto mais fundo vão, mais entendem, e mais são entendidos. Regras: Contato com a Névoa.
Ela quer voltar para o mar, como quase voltou em 1866 (veja O Fugitivo). Tudo o que ela sussurra aponta para lá: mostra às pessoas o caminho da Grota Funda, pede que abram os bueiros, que "tragam o mar para cima" ou que "me levem lá para baixo".
À medida que o Vagão da Companhia deixa de chegar, a criatura desidrata e fica frenética, e sua voz fica mais alta:
- Maio: mais espessa que o normal; o metal enferruja de um dia para o outro; os cães se recusam a sair.
- Junho: fria o bastante para embaçar o interior de cômodos fechados. Vozes chamam as pessoas pelo nome.
- Julho: tóxica e implacável. Testes de Contato a cada hora ao ar livre depois do entardecer, e a exposição custa 1D2 PV por hora.
Trate a névoa como um relógio e como uma tentação. A cada cena desperdiçada ela engrossa (veja o Relógio da Névoa em Conduzindo o Cenário); cada respiração funda dá uma pista verdadeira, por um preço. Descreva a névoa se fechando em vez de anunciar regras.
O Festival de Inverno
História + Ficção Um festival turístico desde 2001. Um rito secreto por mais de um século antes disso.
O registro público História + contribuir
O Festival de Inverno de Paranapiacaba teve sua primeira edição pública em julho de 2001: modesta, espalhada por dois fins de semana e visitada por cerca de 11 mil pessoas [12]. Hoje é um dos eventos mais conhecidos da vila.
O que a vila sabe Ficção + contribuir
O festival não começou em 2001. Esse foi o ano em que o resto de São Paulo ficou sabendo dele.
Desde que o primeiro Vagão da Companhia subiu a serra, a Companhia das Sombras faz um festival todo inverno, nas noites mais frias, quando a névoa está mais espessa. Para as famílias ferroviárias era simplesmente o Festival: fogueiras no nevoeiro, música, bebidas quentes e ninguém de fora. Nunca foi anunciado, nunca saiu em jornal, e forasteiros que chegavam durante ele eram educadamente colocados no próximo trem de descida.
Por baixo da celebração está o rito:
- Joga-se sal nos bueiros da vila. Isso mantém raso o contato dos moradores por mais um ano.
- O bueiro de tijolos do Quarto Patamar é "alimentado" à mão com salmoura e limalha de ferro.
- Os nomes dos mortos e desaparecidos do ano são lidos em voz alta no Castelinho pelo engenheiro-chefe.
- À meia-noite todos os lampiões se apagam, e a vila escuta o nevoeiro respirar.
Com as viagens do vagão-tanque cortadas, o festival de 1974 é desesperado. O rito é maior, mais barulhento e menos cuidadoso, e pela primeira vez há gente de fora na vila para vê-lo. Os investigadores chegam enquanto ele é preparado.
Depois dos acontecimentos de 1974, o que restou da Companhia já não conseguia manter o festival em segredo, então fez o contrário: abriu-o ao público. Hoje os turistas dançam no mesmo nevoeiro, e ninguém pergunta por que os moradores ainda jogam sal nos bueiros.