Em tupi, Paranapiacaba quer dizer “o lugar de onde se vê o mar”. Na maioria das noites, não se vê.
Este capítulo é só para os olhos do Guardião. Ele conta o que de fato está acontecendo na serra, como a investigação foi montada, onde termina a história e começa a invenção, e como conduzir tudo em duas ou três sessões.
Sinopse
História + FicçãoO que o governo pensa que está fechando, e o que está de fato libertando.
Em 1974, a rede ferroviária federal inaugura uma moderna linha de cremalheira descendo a Serra do Mar e começa a desativar o velho funicular a cabo que, desde 1867, levava o café do planalto ao porto de Santos [2][1]. No papel, é uma modernização para cortar custos.
O que nenhum ministério em Brasília sabe é que o funicular nunca foi só uma ferrovia. Todo trem que subia do litoral puxava um vagão a mais do que o horário admitia: um vagão-tanque lacrado de água do mar, grossa de limalha de ferro e pedra britada, destinado ao Quarto Patamar e aos túneis sob a Grota Funda. A água do mar mantém sonolenta uma criatura marinha pré-humana. O ferro e a pedra alimentam seu corpo de ametista, que cresceu por um século até ficar grande demais para algum dia deixar a montanha.
A criatura foi capturada aqui em 1866, trazida do sul por um homem que ela havia tomado, a poucos quilômetros do mar para o qual fugia. Desde então, ela só tem um jeito de alcançar alguém: a névoa. Todos que a respiram a escutam, um pouco mais a cada noite.
À medida que o funicular desacelera, os vagões-tanque param de chegar. A névoa fica fria, pesada e insistente. A Companhia das Sombras, cujos membros a respiram há gerações, está perdendo o controle, e três forasteiros que subiram a serra por motivos muito diferentes começam a ouvir os próprios nomes no nevoeiro.
FicçãoA estrutura ramificada da investigação, da chegada aos três finais.
7 cenas, 3 finais. Toda cena pode ser alcançada a partir da chegada, e todo caminho leva a um final; o script de build confere as duas coisas.
Cada caixa é uma cena; clique para ir até ela. Passe o mouse numa seta para ver o que abre aquele caminho.
As cenas
1. Chegada ao Alto da SerraUma noite de inverno, o último trem, uma vila preparando um festival de que ninguém de fora ouviu falar.
2. O Pátio FerroviárioA auditoria de Dudu: livros-caixa cheios de "água de lastro" e um vagão-tanque com marcas de maré por dentro.
3. O Festival de InvernoFogueiras no nevoeiro, sal nos bueiros, nomes lidos em voz alta e um velho maquinista que se lembra.
4. O TúnelA velha foto de Arthur, refeita: a névoa tem rostos, e alguém observa do alto do morro.
5. O Jantar no CastelinhoO engenheiro-chefe oferece um acordo; o escritório dele guarda um século de segredos.
6. O Quarto PatamarUma casa de máquinas no meio da serra, uma caixa de limalha de ferro e um bueiro que engole o mar.
7. Sob a Grota FundaA câmara de cristal violeta, a Semente no centro e a escolha.
Conduzindo o Cenário
FicçãoO tom, o Relógio da Névoa, um plano para três sessões e como manter a mesa segura.
A Névoa sobre o Funicular é uma investigação de tensão lenta para três investigadores, jogada em duas ou três sessões de umas quatro horas. Funciona como aventura de uma sessão se você cortar o Túnel e começar com os investigadores já juntos no Festival.
Frio, úmido e triste, mais do que sangrento. O horror é que os investigadores estão sendo mudados pelo ar que respiram, e que as duas saídas custam algo de verdade. Mantenha humanas as pessoas da vila: a maioria está com medo, não é má, e joga sal nos bueiros porque os avós jogavam.
O cenário toca em afogamento, num irmão desaparecido e numa vila real, habitada. Combinem limites e véus antes de começar. Se alguém na mesa perdeu um parente, a trama de Lenita pode terminar com Tonico encontrado vivo, veja Tonico Castro.
O cenário se passa durante o governo militar no Brasil [13]. Censura, uma ferrovia estatal e uma ativista no trem dão pressão real à mesa sem precisar de um vilão fardado: um policial na estação que recolhe os panfletos de Lenita, um editor que não publica as fotos de Arthur, um auditor que responde a Brasília.
Fato e Ficção
História + FicçãoOnde termina a história e começa o Mythos, e as liberdades que este cenário toma.
Este cenário é construído sobre lugares reais e máquinas reais. Toda afirmação histórica do grimório traz uma citação numerada; tudo o que está marcado como Ficção é inventado. A Linha do Tempo mostra os dois lado a lado.
A Serra Nova como a linha que morre. Na história real, o funicular mais antigo, o da Serra Velha, parou em 1970 e seu leito virou a linha de cremalheira de 1974; o funicular da Serra Nova continuou funcionando até o começo dos anos 1980 [1][4]. O cenário coloca a "ameaça de fechamento" na Serra Nova, que é onde as Locobreques de fato trabalhavam.
O vagão-tanque nunca existiu. A pesada tração a cabo foi construída para o café, para a carga e para uma subida de 796 m [5], não para água do mar.
A ametista não é nativa da Serra do Mar. Os grandes geodos de ametista do Brasil se formam nas rochas vulcânicas do extremo sul [10][11]. Na ficção, é exatamente isso que torna a pedra errada: alguém a trouxe até aqui.
A ametista é mesmo quartzo colorido por ferro. Seu violeta vem de impurezas de ferro no cristal, ativadas por radiação [10]. A ficção leva isso ao pé da letra: a Companhia fez crescer o corpo da criatura alimentando-a com sílica e ferro tirados da própria ferrovia.
O Festival de Inverno é mais antigo que o registro. Oficialmente, o Festival de Inverno de Paranapiacaba começou em julho de 2001 [12]. No cenário, ele acontece todo inverno desde o século 19 como um rito privado da vila, da Companhia das Sombras. 2001 é só o ano em que os de fora foram convidados pela primeira vez: veja o Festival de Inverno.
Paranapiacaba é uma vila real, habitada e tombada como patrimônio [5]. O culto e seus crimes são ficção e não pretendem descrever nenhuma pessoa, família ou instituição real.