Handouts dos Jogadores
Santos, 2 de junho de 1974
Lenita,
Não conta pra Mãe que eu escrevi isso. Me passaram pros tanques da companhia, aqueles que sobem a Serra de noite. Pagam bem, ninguém diz por quê.
Os tanques têm cheiro de praia mesmo vazios. No fundo tem uma lama que brilha roxa quando a gente bate a lanterna, e é quente, Lenita, quente feito coisa que respira.
Ontem eu tava dentro de um, raspando, e ouvi meu nome. Não vinha de fora. Vinha da lama.
Tem uma coisa viva no fundo do tanque da companhia. E ela me chama pelo nome.
Vão me mandar pro Alto da Serra na sexta, pra "ajudar no festival". Escrevo de lá.
Teu irmão,
Tonico
REDE FERROVIÁRIA FEDERAL S.A. — RFFSA
Superintendência Regional — São Paulo
Memorando interno nº 114/74 · 20 de maio de 1974
Para: Engenharia, Seção Serra Nova (Alto da Serra)
1. Com a linha de cremalheira em operação, o sistema a cabo da Serra Nova será desativado progressivamente a partir de 1º de junho.
2. O frete noturno fica reduzido à carga essencial. O "serviço especial de lastro" (vagões-tanque, viagens noturnas, Santos → 4º Patamar) fica suspenso até a auditoria.
3. Um auditor da Diretoria-Geral visitará a seção em junho. As contas de "água de lastro" desde 1946 devem ficar à disposição.
Escrito à mão na margem, com outra tinta: "Não podem. Não antes do inverno. — H.A."
EFSJ · ALTO DA SERRA · REGISTRO DE MENSAGENS EXPEDIDAS
03 JUN 74 · PARA PÁTIO SANTOS · ÁGUA DE LASTRO URGENTE PT MANDEM À MÃO SE RECUSAREM VAGÕES PT
07 JUN 74 · PARA PÁTIO SANTOS · RAPAZ CASTRO CHEGOU PT JÁ OUVE PT
11 JUN 74 · PARA 4º PATAMAR · ALIMENTAR LIMALHA EM DOBRO PT SALGAR TODOS OS BUEIROS PT
14 JUN 74 · PARA PÁTIO SANTOS · AUDITOR NO TREM PT JORNALISTA TAMBÉM PT
16 JUN 74 · PARA 4º PATAMAR · RAPAZ CASTRO DESCEU PT NÃO SIGAM PT
As páginas estão empenadas de água e cheiram a mar. A letra é de garimpeiro. As anotações vão ficando mais curtas.
Março. A pedra estava na gruta alagada embaixo do morro. Só queria pelo preço. Desde que trouxe ela pra fora não sinto fome.
Maio. Leste. Ela quer leste. Quando viro pro oeste o peito enche d'água e eu tusso sal.
Julho. Andei a noite inteira de novo. Os pés sangram e não sinto. Ela canta. A canção é de um lugar sem luz, muito largo, muito frio. Casa.
Setembro. Os ingleses estão fazendo uma estrada de ferro serra acima. O nevoeiro veio comigo. Eles me olham esquisito.
Última anotação. Daqui se vê o mar.
SÃO PAULO RAILWAY · ACAMPAMENTO DA OBRA, ALTO DA SERRA · SEPULTAMENTOS
| Data | Nome | Idade | Causa da morte |
|---|---|---|---|
| 14 out. 1866 | J. Pereira (trabalhador) | 31 | Queda do plano inclinado |
| 2 nov. 1866 | Desconhecido (criança) | — | Febre |
| 19 nov. 1866 | Bento Arruda (garimpeiro) | c. 40 | Afogamento |
| 3 dez. 1866 | T. Hughes (ajustador) | 27 | Esmagado por vagão |
Ao lado da terceira linha, com a mesma letra do escriturário: "Encontrado ao pé do primeiro plano. Pulmões cheios de água do mar. Dr. M. diz que é impossível."
Uma cópia em preto e branco, 18 × 24 cm. Um túnel ferroviário na Serra Nova, a névoa saindo dele. Na névoa, se você olhar por tempo suficiente, há rostos: uma dúzia, bocas abertas, esticados na direção da câmera como se estivessem debaixo d'água.
No verso, datilografado numa etiqueta:
SÃO PAULO RAILWAY — ANTIGA DIRETORIA (EM LIQUIDAÇÃO).
Proibida a publicação. Negativo retido no Alto da Serra.
Por ordem do Engenheiro-Chefe.